Alimentos: cura ou causa de doenças inflamatórias e dolorosas crônicas?

Em algum momento da vida, sofrendo de algum mal, você já deve ter recebido alguma indicação de consumir ou evitar algum alimento para melhorar seu mal-estar, não é?

Em cada pessoa, de forma singular, o alimento pode exercer um papel curador ou causador de doença. Algumas doenças inflamatórias crônicas como a fibromialgia e a enxaqueca, que ocorrem mais em mulheres, podem ser desencadeadas por alimentos.

A convite do Dr. Charles, Dr. Gilberto de Paula, nutrólogo, imunologista, e fundador da Academia Brasileira de Saúde Ambiental, compartilhará seus conhecimentos com os nossos leitores sobre a relação entre alergias e doenças inflamatórias e dolorosas crônicas.

ALERGIAS ALIMENTARES – SUA RELAÇÃO COM DOENÇAS INFLAMATÓRIAS E DOLOROSAS CRÔNICAS – Parte 1

By Dr. Gilberto de Paula

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Talvez uma das causas de doenças inflamatórias e dolorosas crônicas mais negligenciadas sejam as alergias, sensibilidades, intolerâncias, reações tóxicas e/ou farmacológicas a alimentos.

Convido-lhes a conhecer um pouco da história e evolução da medicina ambiental, que trata as alergias alimentares.

O que os antigos sabiam sobre a ação dos alimentos na cura ou na causa das doenças

Desde a Antiguidade clássica, existem numerosos relatos médicos de excelente qualidade relativo aos efeitos dos alimentos e dietas na saúde humana. Dietas restritivas ou reforçadas fazem parte das intervenções médicas há pelo menos quatro mil anos!

“Ut quod ali cibus est aliis fuat acre venenum”, “O que é alimento para uns é veneno para outros” – De rerum natura, de Lucrécio, [c. 98–55 a.C.]; e “Fazei do teu alimento teu remédio e do teu remédio teu alimento”, Hipócrates [c. 460–377 a.C] são aforismos da antiguidade médica grega, em que se destaca a natureza bipolar dos alimentos. Já na Idade Média o pai da farmacologia (iatroquímica¹), Paracelso [c. 1493–1541] enunciava: “A diferença entre remédio e veneno é a dose”.

Ao longo dos séculos, vários médicos perceberam relações entre a ingestão de alimentos e reações inflamatórias e dolorosas. No séc. XII, Moisés Maiomônides [1135–1204], médico judeu-árabe, já estabelecia uma possível relação dos alimentos com doenças, inclusive, traduziu uma série das orientações do Hipócrates sobre o manejo nutricional de doenças agudas e crônicas.

O que sabemos hoje

Há 2400 anos, Aristóteles, disse que a Ciência adora surpreender-se com o óbvio. A exemplo disso, nos últimos doze anos presenciamos o surgimento de uma enorme quantidade de publicações científicas sobre as propriedades farmacológicas, funcionais (nutracêuticas²) dos alimentos.

Isto quer dizer que temos muita informação disponível sobre o papel dos alimentos como remédio, validado cientificamente tanto por universidades ocidentais quanto por orientais.

Sendo assim, quando assumimos que um alimento pode atuar como remédio, reconhecemos que o alimento, nessa condição, pode ter efeitos colaterais indesejáveis e atuar causando perturbações no funcionamento do organismo – bipolaridade de ação farmacológica. Em outras palavras, o alimento funciona como veneno ou como remédio!

Medicina ambientalista

Baseado em todo esse corpo de conhecimento, nos anos 1960, médicos americanos tornaram vivo esta medicina, e a chamaram de Medicina Ambiental. Este campo de atuação médica estuda os efeitos do meio ambiente (água, alimentos e ar) sobre o organismo humano.

Ela parte do conceito da adaptação do ser humano ao meio ambiente. Esse processo pode ser bem ou malsucedido e, no caso de não ser bem-sucedido, surgem as doenças da inadequada adaptação.

Denominando-se ambientalistas ou ecologistas clínicos, durante cinquenta anos, por meio da Academia Americana de Medicina Ambiental, fomentaram estudos, pesquisas, publicações e cursos sobre alergia alimentar crônica baseados em conhecimentos atuais das áreas de imunologia, alergia e toxicologia.

Uniu-se os conhecimentos destas três áreas para interpretar e compreender as reações inflamatórias dos organismos humanos aos fatores ambientais.

Ao esclarecer quais fatores ambientais desencadeiam um processo inflamatório, o médico passa a ter condições de curar um paciente cronicamente afetado por uma inflamação. Veja o relato do paciente neste vídeo.

http://www.youtube.com/watch?v=w3bVq6vwvdY&feature=youtu.be

Caso um alimento seja responsável pelo desencadeamento de uma síndrome inflamatória dolorosa, como a fibromialgia, e esse alimento seja retirado, ocorre a reversão total da doença.

Ou no caso de outra condição, cuja causa seja mofo (fungo do ar) em uma casa contaminada, quando a pessoa é afastada da casa infectada ou a casa tratada do fungo, o resultado é a cura.

Anualmente, esta Academia realiza treinamentos no Kansas para médicos de todo o mundo interessados em reações de hipersensibilidade tardias a inalantes, alimentos e químicos.

Relação da Medicina Ambiental com doenças inflamatórias dolorosas

O grande desinteresse de agências financiadoras de pesquisa em aprofundarem-se nos estudos desses métodos de diagnóstico e tratamento de doenças inflamatórias e dolorosas é decorrente do fato de que o foco não é o tratamento farmacológico e sim, baseado no estabelecimento de uma relação de causa e efeito entre um ou determinado conjunto de alimentos e uma doença inflamatória e/ou dolorosa.

As doenças inflamatórias resultam de reações de adaptação dos organismos a fatores ambientais; se uma pessoa for colocada em um ambiente livre de poluentes ambientais, água, ar e alimentos por um determinado tempo, a quase totalidade de seus padecimentos tende a entrar em remissão.

A inflamação é uma resposta adaptativa a fatores ambientais. Um exemplo: uma pessoa que tem asma e vai para uma região montanhosa ou para um deserto ou praia, locais nos quais a poluição do ar é bem reduzida, em regra geral tende a melhorar e a asma tende a entrar em remissão.

Quando o processo inflamatório for ocasionado por alimentos e isso for percebido pelo médico que assiste o paciente por meio da observação clínica, aplicação de questionário, e for diagnosticado por métodos confiáveis, existe grande possibilidade, uma vez estabelecido esse fato, ao excluir/em-se o/os alimento/s ofensivo/s por um período de três a seis meses, de ocorrer a remissão dos processos inflamatórios, por vezes rebeldes a vários tipos de tratamentos.

No próximo post, Alergia Alimentar Imediata e Tardia. Você já leu algo sobre este assunto?

Glossário

¹iatroquímica – sf (iatro+química) Doutrina médica que surgiu durante o século XVI, a qual atribuía a causas químicas tudo o que se passava no organismo, são ou enfermo. (Fonte: Dicionário Michaelis)

²nutracêutico – a portaria nº 398, de 30/04/99, da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde no Brasil diz que “é alimento funcional todo aquele alimento ou ingrediente que, além das funções nutricionais básicas, quando consumido como parte da dieta usual, produz efeitos metabólicos, fisiológicos ou efeitos benéficos à saúde, devendo ser seguro para consumo sem supervisão médica” (ANVISA, 2001).

Atualizado em 19 de maio de 2015

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